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O P I N I Ã O

A MÍDIA E OS DIREITOS HUMANOS FUNDAMENTAIS

Tenho repetido esta constatação : o mundo da atualidade vê-se tempestivamente dominado pelo chamado processo de globalização, que tem por base o irreversível progresso tecnológico e torna imediata a comunicação entre pessoas e povos. Desta forma, acontecimentos distantes tornam-se próximos de nossa realidade. Isto não significa, porém, que a relação entre eles se torne mais humana.

Notícias, ou fatos, antes sem importância alguma para a realidade do cidadão comum brasileiro, tomam, definitivamente, conta das manchetes e das conversas de botequim. A queda das bolsas num cantinho do oriente ou na Rússia, tem efeito muito maior sobre nosso inconsciente coletivo do que a chacina da favela naval, ou a tragédia da professora Marisa presa em flagrante, embora inocente, por exemplo.

Para a mídia, mais FHC do que nunca, isto é um prato cheio. Nada melhor do que tirar o foco do presidente e seu vocabulário neo-"vagabundo" para direcioná-lo, elegantemente, à hospitalidade da realeza espanhola ou ao seminário sobre globalização na Suíça, ou seja, para o outro lado do planeta.

Este é o perigo da globalização para nós, do terceiro mundo: nos distanciamos da busca das soluções para a nossa realidade, identificando-nos com as classes médias do mundo, enquanto cresce a pobreza em nosso quintal. A miséria e a fome ficam aí, olhando para os nossos rostos com a cara do pai que rouba para alimentar seu bebê, mais três filhos, mais a mãe, mais a mulher, mais ele mesmo e vai preso. E ficamos muito orgulhosos nos julgando solidários porque desfilamos caminhões de víveres em direção ao Nordeste. E o planejamento para solucionar o velho e sempre novo problema da seca, alguém fez? Será que só eu não soube?

O grau de desenvolvimento de um país mede-se pelo grau de desenvolvimento de seu povo. É pela via do respeito à dignidade da pessoa, à pessoa do/a outro/a, à identidade do/a outro/a, que se mede a qualidade de vida. O que distancia, no entanto, o mundo civilizado do outro mundo "em desenvolvimento" é o padrão de respeito aos direitos humanos fundamentais dos cidadãos. Inserir-se no chamado mundo civilizado, é vontade de todos. Estar efetivamente inserido, depende do bem estar individual e social de toda a população. Caso contrário, estaremos vivendo sob o neo-imperialismo observado por Saramago.

A vivência dos direitos humanos diz com o cotidiano de cada um e de todos nós. Saber dizer não à violência física e psicológica em todos os níveis, desde o ambiente doméstico, passando pelas ruas e chegando às prisões: o respeito à identidade é tradição ainda a ser criada. Saber dizer sim à criança e ao adolescente, desde o ambiente doméstico até a rua e na rua. Sim à mulher em sua luta pela igualdade, à mulher negra, com um não solene à falácia da democracia racial. Um meio ambiente sadio, com todos os lixos devidamente equacionados é respeitar a vida humana, assim como o é a garantia de acesso à Justiça.

O desemprego, a fome de comida, a fome de educação, a fome de cultura, a fome de saúde, a extinção paulatina do direito de ir e vir, o desrespeito às regras de trânsito, a invasão do corpo humano, a grande lata de lixo e o mictório público em que se transforma nossa cidade, a minha e a tua rua, as pessoas sem terra e sem teto, as pessoas com teto e com medo. Longe, muito longe estamos do mundo civilizado.

O binômio cidadania e Justiça é o desejável para atingir o bem estar social objetivado pela Constituição brasileira.

Não quero ver aqui mulheres e homens como separados da sociedade, mas parte integrante de um mundo que tende, pela ação da mídia segmentada, a ser cada vez mais restritivo e segregacionista. Quando consultamos uma revista importada, ou um site sobre vinhos de Borgonha, afastamos uma realidade que não nos interessa. E, assim, ficamos mais distantes das soluções.

E é isso que a mídia tem feito. Muita apologia da violência: a massa de filmes importados, descarregando socos, facadas e metralhadoras nossa sala adentro. Ou a novela, que imitando a realidade, divulga para milhões de telespectadores o modelito de como fazer para colocar atrás das grades por uso ou tráfico de drogas um inocente trabalhador. E aí a Professora Marisa, de Diadema, fica 23 dias presa, por vingança de alguém. Precisou até ser julgada e absolvida, imaginem se não fosse. Acredito na Justiça. E aqueles que não são da classe média, que não têm voz nem condições de por a boca no trombone, como ficam?

Está na hora da mídia fazer uma profunda autocrítica nesse sentido. E nós cobrarmos. O futuro aponta para a Internet, que segmenta e discrimina cada vez mais o ser humano, a começar pelo próprio contato impessoal que a consulta computadorizada impõe. Não sou contra a tecnologia, é fator de progresso para as pessoas. Entretanto, devemos ter cuidado com os paliativos que o mundo "globalizado" nos obriga a consumir.

Afinal, qual globalização nos interessa? Aquela feita para seres humanos, que pretendem viver em harmonia, justiça e igualdade? Ou aquela feita de consumidores, vorazes de seres economicamente ativos? Talvez a solidariedade seja a palavra e a chave da ação. Não apenas aquela que se manifesta na emergência da obra de caridade, mas aquela solidariedade de toda a comunidade na busca de soluções para os mais pobres, para os mais carentes e que, se observarmos bem, serão soluções para todos, que viverão num mundo mais feliz e menos culpado.

Sei que enquanto os critérios jornalísticos forem trocados por pesquisas de opinião, enquanto os jornais forem tratados como produto de mercado, vamos sofrer com sua banalização e breve decadência. Está na hora de tratar o leitor, e principalmente a leitora, como seres dignos da busca da verdade, da decência e do respeito ao ser humano. Esta, sim, é a missão da imprensa: contribuir para a transformação do mundo num paraiso bom de se viver: para todos. E nesse universo de bem estar há dois componentes indispensáveis, que são a mulher e o homem.

Norma Kyriakos